O percurso teórico e prático proposto na UC de Metodologias de Investigação foi extremamente pertinente para a minha prática artística.

Os temas abordados coincidiram perfeitamente com determinados aspectos centrais do meu trabalho, intensificando o meu foco e reflexão sobre os mesmos. O facto de a UC se ter desenvolvido em paralelo com a definição e planeamento dos detalhes finais de um projeto expositivo em que tenho vindo a trabalhar ao longo do último ano, e que foi inaugurado quase em coincidência com a conclusão da UC, contribuiu certamente para um aprofundamento da reflexão sobre o que considero serem os elementos conceptuais centrais na minha prática, bem como para o enriquecimento do meu conhecimento de autores cujo pensamento se alinha e reforça os fundamentos teóricos do meu trabalho.

Começando pelas primeiras palavras do primeiro texto tratado, “A Ética do passante “1 de Achilles Mbembe, que eu disconhecia: “O seculo XXI abre com uma confissao, a da extrema fragilidade de todos. E do Tudo.” Fragilidade, essa, de todos e de tudo, que é central no meu trabalho em geral e, em particular, no contexto da minha atual exposição, na obra ‘Passagem’: um percurso de fragmentos vítreos – modelados em memórias de pedras, suspensos, em ascensão, por fios de linho branco.

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Frágil é a existência em geral, o equilíbrio das relações entre as espécies que vivem no mesmo planeta, frágil é o próprio planeta. No exercício prático realizado na Lagoa Azul, “A Confissão” pedi a cada um dos participantes voluntários, cujo número acabou por coincidir com todos os presentes, incluindo a professora, breves momentos de encontros presenciais, com o objetivo de criar um momento de esforço empático para com o meio ambiente, imaginando que nós próprios fossemos o local que acolhe a Lagoa Azul, como se o corpo do local fosse o nosso corpo.

A conclusão a que cheguei depois desta experiência é que, de facto, identificarmo-nos com um ambiente que percebemos como exterior a nós é um esforço antinatural. Fazemos parte de um todo, de uma série de relações invisíveis mas poderosas, porém é-nos impossível interiorizar a nossa identificação com esse todo. O ser humano, através das mais variadas práticas espirituais, religiosas, meditativas, sempre procurou ultrapassar os seus limites individuais: essa ultrapassagem não deixa de ser uma aspiração, perenemente viva e ao mesmo tempo inalcançável, o seu desejo surge de um encontro, que se quer mais profundo e intenso, e que acaba invariavelmente por nos colocar perante os nossos próprios limites inultrapassáveis. Mbembe cita Fanon e a sua ideia de lugar: “Ele chamava ‘lugar’ a toda a experiência de encontro com os outros que da azo à autoconsciência, não necessariamente como individuo singular, mas como brilho seminal de uma humanidade, mais vasta, a braços com à fatalidade de um tempo que nunca para, cujo principal atributo é o de fluir – a passagem por excelência.” 2

Se qualquer tentativa de identificação com um lugar, que é um encontro, está votada ao fracasso, a atitude proposta por Mbembe, de “solidariedade e desprendimento”, no cerne da sua ideia de “Ética do passante”, é a que mais de perto nos pode permitir aproximar desse lugar-corpo-ser. Uma atitude que, talvez ousadamente, poderia ser comparada àquela ideia, simples e profunda, de “amor” que Santo Agostinho soube definir tão bem há 1600 anos.

É esta atitude de “amor” que encontrei no texto de Ingold3 , quando ele descreve a investigação, seja ela artística ou antropológica, não como uma operação, um trabalho que se faz numa certa quantia de horas por dia, mas como uma forma de estar no mundo, com cuidado e atenção. Esta atitude coincide com a descrita no cerne da Ética do Passante: para ter uma atitude de cuidado com o objeto de investigação, temos de ser solidários com ele; para estarmos atentos, temos de estar distanciados, observando de fora.

O texto de Ingold remete-me para o meu projeto de exposição, que se enquadra no âmbito da relação entre arte e ciência e que tem lugar no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa, no Antigo Laboratório de Química Analítica. Foi precisamente esta forma de encarar a prática artística como experimentação, de pensar o atelier como um laboratório, que me levou a expor obras novas e inícios de séries, em vez de obras já pensadas, retrabalhadas, testadas, como seria aconselhável, sobretudo para uma artista em início de carreira. Neste caso, o “lugar”, que é um encontro, integra a obra e orienta-a no seu desenvolvimento.

Do texto de intenção da exposição: “A necessidade de investigação e experimentação contínuas é um dos aspectos que unem a arte e a ciência.

Por esta razão, e devido à localização no antigo Laboratório de Química Analítica, optei por expor uma série de trabalhos em curso, estudados para a exposição, inícios de séries que me interessam explorar, instantâneos do meu processo de trabalho no momento presente.

A constante do meu trabalho artístico nos últimos anos é o desejo contínuo, transversal e perpetuamente insatisfeito de transcender os limites do indivíduo e das suas formas de manifestação, como tentativa de resposta à fragilidade da existência: o antigo Laboratório de Química Analítica tem sinais do tempo, da sua história e de histórias passadas, evidências de passagens efémeras. Dialogar com a geologia deste espaço permite-me enriquecer com mais uma camada as relações invisíveis entre corpos minerais, animais e humanos, entre épocas e geografias, a (re)descoberta de um único corpo invisível, do qual cada existência é apenas uma manifestação parcial e temporária.”

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Como artista e caminhante que percorre sempre o mesmo caminho, descubrendo-o sempre de novo, concordo plenamente com o texto de Ingold e com a sua ideia de re-search, tal como me identifico com as ideias de Petra Lange-Berndt 4 e Jane Bennett 5: as histórias e o simbolismo dos materiais, por um lado, e os processos naturais ou casuais de alteração que lhes são inerentes, por outro, são parte integrante do meu processo artístico, que inclui uma pesquisa detalhada com vista à escolha do material que mais tarde utilizarei para realizar uma obra.

Interessa-me a transformação contínua que faz parte do fluxo da vida. E isso também se traduz na forma como escolho os materiais e como os transformo ou deixo que se transformem.

Interessa-me a fisicalidade, a história e o simbolismo da matéria.

O vidro, devido à sua presença na maior parte das actividades humanas, é um material natural, mineral, transparente, refletor, frágil e cortante.

Os pigmentos naturais, sangue da terra, recordam-nos os impressionantes ciclos de transformação que ocorrem durante um enorme período de tempo, comparado com o tempo de existência da nossa espécie neste planeta.

O pelo de cão (afeto, calor, contacto corporal, pele, cuidado).

Madeira, fogo (purificação).

Linho branco: no antigo Egípto, na Bíblia é emblema de sacralidade. Ligação entre mundo terreno e ultraterreno. Essência da Metamórfose.

A goma-arábica, vinda da árvore da acácia. Acácia: símbolo do sol, da ligação entre o visível e o invisível.

O sopro 6, que dá forma a tudo.

E a ideia de fluxo, que mencionámos no texto de Groys 7 , que caracteriza a arte contemporânea e que aparentemente contrasta com o desejo de eternidade da arte, faz-me lembrar a respiração, que dá forma ao vidro, que dá forma a uma vida e que une tudo. A respiração é fluida, como a arte é fluida, como o meu trabalho é fluido, como o vidro é fluido quando aquece. É também esta fluidez que procuro no meu trabalho: o pensamento que se traduz na fluidez da forma e daquilo que a forma toca.

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  1. Mbembe, A. ([2016] 2017). “A Ética do passante”, Políticas da Inimizade. Lisboa: Antígona, pp. 243-250.

  2. ibidem

  3. Ingold, T. (n.d.). Anthropology Between Art and Science: An Essay on the Meaning of Research | FIELD. Retrieved December 13, 2023, from Field, A Journal of socially engaged art criticism website: https://field-journal.com/issue-11/anthropology-between-art-and-science-an-essay-on-the-meaning-of-research

  4. LANGE-BERNDT, P. 2015. “Introduction: How to be Complicit with Materials”, Materiality. London/Cambridge: White Chapel/MIT, pp. 12-23.


  5. BENNETT, Jane. 2010. “Preface”, Vibrant Matter – A political ecology of things . Durham- London: Duke University Press, pp. vii-xx.


  6. “O espírito, o sopro, vagueia de um lugar para outro e daí regressa à sua origem, ocupando qualquer corpo. Passa dos animais para os homens e de nós para os animais e nunca morre; tal como a cera dúctil toma novas formas, nunca permanece como era, nunca retém a mesma forma, e no entanto é a mesma, assim a alma é sempre a mesma, digo-vos, mas migra em formas mutáveis”. (Publius Ovid Naso. Metamorfoses. Garzanti Classici, 29 de maio de 2013. Trad.: Valsecchi, E.); “Partilhamos o nosso sopro de vida com todos os seres vivos presentes e futuros. É Gaia que respira em nós. O sopro de um novo ser produz uma nova partilha e fortalece o corpo comum: remodelamos o corpo de todo o planeta e construímos novas alianças entre as formas. Cada ser vivo é um micro Leviatã que reúne os corpos mais díspares e heterogéneos de diferentes maneiras.” (Coccia, Emanuele. Metamorphosis. Turim, Giulio Einaudi Editore)

  7. Groys, B. (2022). Arte em fluxo (P. Elói Duarte , Trans.). Orfeu Negro.


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